28 agosto 2007

Será o scan o maior vilão dos quadrinhos?

Publicado no site Sedentario e Hiperativo , replicado no barker scans, gibihq, e muitos outros.

O Editor da HQM fala sobre scans.
Sei que o texto é bem grandinho mais acho que vale a pena!!!
Crux

O scan de histórias em quadrinhos é uma realidade. Não há quem possa negar. Alguns leitores não gostam, reclamam da leitura no monitor do computador. Outros já não se importam.
Nos EUA, país que mais é afetado por scans, a discussão sobre o assunto começou há tempos. No Brasil, a discussão praticamente não existe. Há poucos dias, entrei em contato com a equipe do Sedentário & Hiperativo, reclamando por eles terem divulgado scans de uma série publicada pela HQM Editora, na qual sou um dos sócios-diretores.
Mas, minha reclamação não foi devido a presença dos scans no site, e sim a falta de referência à existência de uma publicação nacional da série em questão: The Walking Dead (aqui no país, Os Mortos-Vivos). E, para minha surpresa, foi aberta a mim a possibilidade de iniciar este debate sobre o papel dos scans no mercado de quadrinhos hoje em dia.
Antes de começar a minha reflexão sobre o assunto, gostaria de deixar claro aqui que esta postura é minha, não necessariamente refletindo a postura dos meus colegas de editora, outros editores e até jornalistas especializados. Pois bem, dito isso, posso começar.
Vamos deixar uma coisa clara: há dez anos atrás, a internet não tinha tanta força como hoje, e os leitores de quadrinhos sobreviviam sem os scans. Os amantes de música viviam sem os MP3, e os cinéfilos (ou os fãs de séries de TV) viviam sem fazer download de seus vídeos.
Mas, a internet está aí, e hoje é o maior símbolo da globalização, este artifício capitalista que os anos 90 trouxeram para a vida de cada uma das pessoas do mundo. Entende-se por globalização uma massificação de produtos antes restritos a um mercado. Hoje, um australiano com acesso à internet consegue, por exemplo, acessar este blog que você, leitor, está lendo.
Aliás, se não fosse pela internet, este blog não existiria, e você não saberia de muitas coisas, porque elas são mostradas só aqui. Ou, ainda mais, a HQM Editora não existiria, porque há seis anos, quando tudo começou, éramos só o site HQ Maniacs, que até hoje existe e é um dos mais acessados veículos especializados em quadrinhos do país. Não fosse a internet, não nos conheceríamos, não dividiríamos a nossa paixão pelas HQs, e assim, não fundaríamos uma editora por sentirmos a necessidade de uma diversidade no mercado.
Ou seja, a internet facilitou as coisas. Claro. Qual veículo da mídia hoje cobre melhor as HQs? Os jornais? As revistas semanais? A televisão? O rádio? Ou a internet? Se não existisse a internet, com certeza o boom dos quadrinhos em 2006 aqui no Brasil não teria acontecido. E a continuidade deste boom, em 2007, também não.
Todo editor de quadrinhos aqui do país dirá a mesma coisa que eu: esta é a melhor época para o leitor e para o mercado de HQs no Brasil. Nunca houve tanta variedade, tanta gente interessada nas HQs. É impressionante o número de mangás nas prateleiras, o gradativo crescimento das publicações européias, o sucesso que os super-heróis estão alcançando novamente. Além disso, nunca se viu tanto material alternativo nas bancas, livrarias e comic shops.
Seria assim se a internet, e consequentemente os scans, não existissem? É difícil dizer. Depois de uma era de trevas nas hqs (os anos 90), a arte sequencial perdeu a credibilidade. Não era mais possível atrair novos leitores de quadrinhos. O mercado estaria estagnado.

Quando o mercado estadunidense se tocou que os anos 90 não estavam dando certo, tudo mudou. A Wildstorm lançou Authority, e uma nova era começou. A série marcou a virada do milênio, mas marcou uma revolução nas histórias em quadrinhos.
Novamente, títulos e mais títulos estavam entrando no mercado. As grandes editoras (Marvel e DC), trataram de consertar os erros de toda uma década. Resumindo os últimos anos brevemente, posso afirmar que os quadrinhos lá fora se diversificaram ainda mais, e ainda assim, novos títulos são lançados a cada mês. Novas séries mensais, bimestrais, minisséries e graphic novels estão sendo colocadas no mercado mês a mês.
Quantas HQs saem por semana nos EUA? Na semana do dia 11 de junho, as quatro maiores editoras americanas – DC Comics, Marvel Comics, Dark Horse e Image Comics – publicaram juntas mais de 60 revistas, isso sem contar os encadernados e edições com duas ou mais capas. Que leitor tem esse poder aquisitivo? Como saber o que comprar, o que colecionar?
Como fica para o leitor incrédulo, ou para um novo leitor em potencial, a situação? Em quem confiar? O que ler? O quadrinho já foi uma peça barata; hoje, é um produto extremamente elitizado. É aí que entra o scan. Ou, aí que deveria entrar.
Todo scanner – a pessoa que scaneia os quadrinhos -, assim como todo uploader – a pessoa que hospeda em um (ou mais) servidor o scan – gosta de quadrinhos. É claro, nenhum scan é comercializado. Há dois motivos para o scan existir. O primeiro deles é a preservação da memória dos quadrinhos por meio da digitalização do material. O segundo motivo, não menos importante, é a divulgação das HQs para o público.
Ora, não há scan se não há quadrinhos, certo? E todo mundo sabe que baixas vendas significam cancelamentos. É por isso que o scanner (de boa fé, claro), trata de colocar nos scans a seguinte frase “Gostou? Compre!”. O incentivo deve acontecer. O leitor deve ser consciente que o scan está lá de graça, mas que é dever incentivar a produção dos quadrinhos.
É claro que o mundo não é lindo, e nem todas as pessoas são honestas nesse ponto. Não é todo mundo que lê scans que vai comprar quadrinhos, infelizmente. Se fosse assim, ser editor de quadrinhos seria muito mais fácil, e ser leitor também.
Não adianta querer banir a existência dos scans, eles existem e se tornaram essenciais na nossa vida moderna. Coloque a mão na cabeça, leitor. Você abre mão de assistir um episódio de Lost horas depois que o mesmo episódio passou nos EUA? Você não dá uma conferida nas músicas novas da sua banda favorita antes mesmo do CD ser lançado no mercado?
Mas você compra o box da série, ou pelo menos assiste na TV. Você compra o CD, não é? Pois deveria. É claro que o dinheiro está curto, ainda mais aqui no Brasil. Mas a consciência deve existir.
Concordo que é muito legal ler a Guerra Civil, a Crise Infinita, 52 e Countdown antes de sair aqui no Brasil. Porque esperar um ano para ler por aqui se você pode ler no dia que saiu nos EUA, não é?
Mas não é bem assim que as coisas funcionam. Se ninguém comprar a revista aqui no Brasil, sabe o que vai acontecer? Você não vai ler mais em papel, porque as editoras precisam de lucro para continuar lançando. O mercado, então, depende de você.
O scanner sabe disso, por isso incentiva o leitor a comprar o material. O scanner é como você, um leitor de quadrinhos. Ele gosta de ler, e compra o material, claro. Senão, ele não estaria na tela do seu computador agora.
Num país como o Brasil, em que nem todas as pessoas tem a “benção” de falar inglês, muitas vezes os scanners se sentem obrigados a traduzir edições. Mais uma vez, nada é vendido. Estão fazendo porque gostam.
Mais uma vez, caímos na mesma discussão. É legal ler o scan traduzido, ver que as pessoas tiveram um trabalho duro para fazer a edição. Acreditem em mim. Traduzir e editar quadrinhos não é uma tarefa tão simples quanto parece. Mas, leitor, mais uma vez as coisas voltam no ciclo que eu citei acima. Você não comprar o material significa que ele pode não existir mais. Bom, no meu caso, isso seria o fim da editora. Já pensou que você, ao negar adquirir sua diversão, pode estar prejudicando outras vidas?
Uma vez postei uma notícia no HQ Maniacs, que pode ser vista neste link http://hqmaniacs.uol.com.br/principal.asp?acao=noticias&cod_noticia=11113, que abordava a reclamação do roteirista Dan Slott perante as baixas vendas da série que escreve, Mulher-Hulk, devido aos scans. Slott afirmou: “Enquanto She-Hulk vem ganhando muitas boas resenhas e mais e mais devotos, as vendas continuam baixas. A série precisa de todas as vendas possíveis. Quando você interrompe o ciclo de vendas, acaba fazendo mal a muitas pessoas”.
Nesta mesma notícia, porém, divulguei a opinião dos editores-chefes tanto da Marvel quanto da DC sobre o assunto. Tanto Joe Quesada, quanto Dan Didio já disseram que os scans não atrapalham as vendas de quadrinhos. Eu penso diferente de ambos os editores. Os scans podem atrapalhar a venda de quadrinhos se não houver a tal da conscientização, coisa que eu já ressaltei exaustivamente acima.
Não ia adiantar nada eu pedir ao pessoal do Sedentário & Hiperativo que retirasse os scans de Os Mortos-Vivos do site. Provavelmente, de acordo com a lei, eu tenho este direito. Mas, quanto mais eu lutasse contra, mais formas os scanners iam encontrar de publicar na rede seus scans.
Meu papel como editor, portanto, é exatamente este. Vir a público, estimular o debate e a conscientização para um “problema” que permeia todo meu trabalho, minha vida.
Assim, leitores, venho aqui fazer apenas um pedido. Se você realmente gosta dos quadrinhos, não deixem o mercado desaparecer por mais um comodismo que a internet, e a globalização, deram para você. Faça com os outros o que você gostaria que fizessem com você. Conheço alguns editores de quadrinhos aqui no país, e sei que eles fazem o que fazem por amor. Sei de desenhistas e roteiristas que também estão fazendo HQ porque gostam. Se nós trabalhamos tanto, e tão bem, para seu prazer, o melhor que vocês, leitores, podem fazer é prestigiar nosso trabalho, e como ótima conseqüência para todos, garantir sua continuidade.

Artur Tavares